Indústria Criativa e Desenvolvimento Sustentável

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A economia criativa tem sido uma vertente econômica em ascensão, refletindo a transformação na relação do indivíduo com o trabalho. A ascensão da indústria cultural reflete a criatividade como um robusto aditivo do trabalhador. Segundo a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), a economia criativa é: 

“[…] um conjunto de atividades econômicas baseadas no conhecimento com uma dimensão de desenvolvimento e ligações transversais a níveis macro e micro à economia global.” (UNCTAD, 2010, p.10, tradução nossa).

Cultura e criatividade são recursos relevantes  para as comunidades locais. Eles alimentam a economia criativa, que é um dos setores da economia mundial que mais crescem em relação à geração de renda, criação de emprego e receitas de exportação. Ela se baseia no capital intelectual, contendo todos os processos e características econômicas, como produção e distribuição, além da criatividade, podendo relacionar-se com diversos eixos, tais como: patrimônio, artes, mídia. De acordo com o Banco Mundial, a indústria cultural e criativa cresceu, aproximadamente, de US $200 bilhões de dólares para US $500 bilhões de dólares entre 2002 a 2015 (Figura 1). Em 2013, foi responsável por contribuir com US $2.250 bilhões de dólares das receitas globais anuais, correspondente a 3% do PIB mundial, e gerou cerca de 30 milhões de empregos em todo o mundo, sendo o setor que mais emprega jovens com idade entre 15 e 29 anos. 

Figura 1. Exportações Globais e Bens Criativos 2000-2015.

Fonte: Documento Cities, Culture, Creativity. Banco Mundial e UNESCO.

A Economia Criativa encontra-se bem difundida em países como Inglaterra, França e Estados Unidos, e não se submete às leis tradicionais de mercado, portanto, consiste em uma nova maneira de introduzir profissionais de diversas áreas em uma economia sustentável. Sabendo disso, a Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO) e o Banco Mundial lançaram o marco de ação “Ciência, Cultura e Criatividade”, com o intuito de capacitar as indústrias culturais e criativas nas cidades, funcionando como instrumento para recuperação das economias em tempos de pandemia da COVID-19. 

Fonte: UNESCO. Cities,Culture, Creativity. Leveraging Culture and Creativity for Sustainable Urban Development and Inclusive Growth.

“Uma das grandes belezas da economia criativa é justamente resgatar a importância do capital humano dentro da economia”, afirma Ana Carla Fonseca (Coordenadora do Programa de Educação Continuada da Fundação Getúlio Vargas em Economia Criativa.)

Por meio de recomendações e exemplos de políticas públicas, o  projeto busca nortear o desenvolvimento urbano, social e econômico das cidades de forma sustentável, tendo como base os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU. Assim, a ideia é permitir que a partir de um ambiente adaptado ao contexto atual, desenvolvam-se políticas públicas favoráveis e que abram espaço para a presença de indústrias criativas. 

A ação foi estruturada a partir de estudos globais e de nove cidades que conseguiram alcançar o desenvolvimento criativo e atingir resultados sociais e econômicos positivos. Apesar de todos os problemas e retrocessos oriundos da pandemia da COVID 19, os dirigentes da ação pontuam que a cultura e criatividade são capazes de contribuir na reconstrução das cidades e da própria comunidade. Foi através da indústria criativa que cidades como Lima, Kyoto e Seul puderam alcançar resultados satisfatórios e se recuperar, alcançando um meio ambiente mais sustentável, reduzindo a pobreza e trazendo maior inclusão social. 

O projeto divide-se em seis categorias norteadoras: 1) Infraestrutura espacial e ambiente, que permitam a regeneração urbana através da utilização de espaços abandonados, por exemplo; 2) Capital humano, que desenvolvam as habilidades de inovação e possibilite a transmissão do patrimônio cultural; 3) Network e suporte entre as cidades que fazem uso das indústrias criativas; 4) Instituições e regulamento, que garantam e permitam o desenvolvimento criativo; 5) Autenticidade no que é produzido para que seja de qualidade e próprio; e por fim, 6) Ambiente digital, pois permite aumentar a cadeia produtiva e de alcance. É a partir desses seis elementos que o projeto “Ciência, Cultura e Criatividade” considera o desenvolvimento criativo eficiente e que finda em benefícios econômicos e sociais positivos para as localidades. 

  Com isso, cabe exemplificar algumas cidades que conseguiram alavancar social e economicamente através da inovação e criatividade. Em Lima, Peru, foi feito um projeto de culinária tradicional que incluía a classe mais pobre e marginalizada da cidade num treinamento conjunto com donos de restaurantes. A partir disso, na junção entre o comercial e o criativo, a cidade conseguiu lidar com problemas sociais e econômicos ao mesmo tempo. Outro exemplo é a Coreia do Sul: em Seul foi construído um cluster industrial de alta tecnologia em um antigo aterro sanitário, o chamado Digital Media City (DMC), que permite a renovação urbana do ambiente e a divulgação da cultura coreana. A ideia partiu da tentativa dos governantes coreanos em desenvolver a cidade estrategicamente, tendo como objetivo a atração de grandes empresas nacionais de tecnologia e do ramo inovatório de TI, e assim, fazer de Seul um grande centro de inovação e criatividade. Como resultado, hoje estão no local grandes empresas, como LG, laboratórios de biotecnologia e outros ramos científicos, sendo essas empresas responsáveis por atividades realizadas apenas em Seul. A exemplo, a galeria da DMC que oferece experiências digitais no local e também faz o detalhamento das empresas e de seus produtos.  

Por Diego Silvestre: https://www.flickr.com/photos/3336/ – https://www.Flickr.com/photos/3336/14507201/, CC BY 2.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=6880921

A cidade de Santos, no Brasil, na qual diversos atores públicos e privados se reuniram para treinar pessoas interessadas nas chamadas “Aldeias Criativas”, em áreas onde antes existiam condições precárias, que permite o acesso cultural e qualificação profissional em economia criativa. Além disso, como a cidade tem uma ótima trajetória cinematográfica, foi criado o Clube de Cinema e o Film Commission: 

“Uma comissão de incentivo, captação e receptivo de produtores que vão à Santos buscar as locações ofertadas para a realização de seus filmes. A cidade possui uma diversidade de cenários – como o porto, as praias e o centro histórico – que podem ser usados tanto para filmes de época como atuais. A comissão também possui um cadastro de profissionais locais e da região aptos para trabalhar nas produções cinematográficas.” (Via Revista, 2019)  

Com isso, os governantes têm conseguido divulgar o trabalho local e também incentivar a participação dos profissionais da cidade no mercado de trabalho audiovisual. Outro exemplo existente é Angoulême, na França, conhecida como a cidade criativa da literatura, que a fim de desenvolver a economia da cidade, impulsionou a indústria de quadrinhos. Os gestores locais impulsionam financeira e logisticamente o mercado, inclusive foi criado o Pôle Image Magelis, um centro de desenvolvimento econômico para apoio da indústria de quadrinhos, incluindo também outros setores como animação, filmagem e videogame.  

“Diferentes atores municipais colaboraram para fortalecer a indústria. Reconhecendo as vulnerabilidades socioeconômicas dos profissionais criativos, as autoridades municipais trabalharam com eles para integrar suas propostas e recomendações em políticas pública.” (UNESCO, Banco Mundial, 2021)

Por fim, um último caso, Madaba, que investiu no artesanato local e turismo para o desenvolvimento criativo. A cidade passou a utilizar os mosaicos nos espaços urbanos a fim de torná-los mais atraentes e também para incentivar o trabalhador local. Existe o Instituto Madaba para Arte e Restauração Mosaica, reconhecido pelo governo, abriu espaço para a produção artística e também para formação de artesãos. 

A partir dessas cidades, que serviram como base para a formulação do projeto entre UNESCO e Banco Mundial, em meio ao contexto atual de pandemia e dificuldades para o crescimento econômico e bem-estar social, utilizar a criatividade e aderir à inovação na criação de políticas públicas tem sido uma oportunidade interessante. É possível notar o quanto a indústria criativa pode ser eficiente para as cidades, sendo de fato uma relevante alternativa para o alcance de um desenvolvimento sustentável e de longo prazo. 

REFERÊNCIAS 

BLUEVISION. O que é economia criativa?Veja 5 exemplos que já estão na sua vida. Disponível em: <https://bluevisionbraskem.com/inteligencia/o-que-e-economia-criativa-conheca-5-exemplos-que-ja-estao-em-sua-vida/>.  Acesso em julho de 2021. 

CIDADE CRIATIVA CIDADE FELIZ. Como cidades criativas vem reagindo aos efeitos da pandemia?. Disponível em:<https://cidadecriativacidadefeliz.com.br/2021/05/18/como-as-cidades-criativas-vem-reagindo-aos-efeitos-da-pandemia/>. Acesso em julho de 2021. 

CITIES ALLIANCE. The Role of Secondary Cities in a National System of Cities. Disponível em: <https://www.citiesalliance.org/themes/secondary-cities>. Acesso em julho de 2021. 

POLITIZE. Você sabe o que é desenvolvimento sustentável?. Disponível em:<https://www.politize.com.br/desenvolvimento-sustentavel-o-que-e/>. Acesso em julho de 2021. 

UNESCO. UNESCO e Banco Mundial lançam marco de ação para recuperação, desenvolvimento e crescimento econômico das cidades criativas. Disponível em: <https://pt.unesco.org/news/unesco-e-banco-mundial-lancam-marco-acao-recuperacao-desenvolvimento-e-crescimento-economico>. Acesso em julho de 2021.

WORD BANK. Cities, Culture, Creativity: Leveraging Culture & Creativity for Sustainable Urban Development & Inclusive Growth. Disponível em: <https://www.worldbank.org/en/topic/urbandevelopment/publication/cities-culture-creativity>. Acesso em julho de 2021. 

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