Representantes do Comitê de Geminações de São José dos Pinhais (PR) falam da sua experiência

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O IDeF entrevistou Elza Delage e Maria Nogueira, presidente e vice-presidente do Comitê de Geminações de São José dos Pinhais, também chamado de Comitê de Geminações Leopoldo Scherner, no Paraná. O Comitê trabalha há 23 anos e congrega membros da comunidade de São José dos Pinhais para promover geminações entre a cidade de São José dos Pinhais e outras cidades estrangeiras. Na semana anterior à entrevista, Elza e Maria (assim como a professora Liliana Fróio, coordenadora do IDeF) participaram da 4a Conferência Paradiplomacia em Foco organizada pelo grupo de extensão da UNESP Marília, RI Works.

Maria Nogueira (à esquerda) e Elza Delage (à direita)

O Comitê é uma entidade sem fins lucrativos com o objetivo de buscar geminações/irmanamentos com cidades estrangeiras e trata-se de uma iniciativa inédita no Brasil, principalmente porque já existe há 23 anos, sendo criado em 1997, em uma época em que tratar de geminações ou relações internacionais era algo muito distante da realidade dos municípios brasileiros. Essa iniciativa não partiu da prefeitura de São José dos Pinhais. Como isso aconteceu? Por que um grupo da comunidade são-joseense de repente se interessou sobre esse assunto e fundou esse comitê? 

Maria – Vou explicar um pouco sobre o início das geminações. Nós tínhamos na comunidade um poeta, escritor, fundador da PUC – São José dos Pinhais e muito estudioso da Língua Portuguesa. Ele foi aluno do Manuel Bandeira e amava Camões, e nós tivemos o privilégio de conviver com ele. Era uma convivência próxima, e nós costumávamos ir à casa dele. Infelizmente, não tenho nenhum livro dele, do professor Leopoldo Scherner. Ele foi premiado várias vezes pela PUC para ir a Portugal fazer cursos na Universidade de Coimbra sobre Língua Portuguesa. 

E assim, na convivência com os portugueses, ele conheceu o professor Fernando Ramos que participava da Câmara Municipal da cidade de Montemor-O-Velho. Eles dialogaram e o professor Scherner, em idas e vindas a São José dos Pinhais, trouxe esse assunto para o professor Engelbert Schlogel e para a Marlí, do Consulado Honorário de Portugal em Curitiba. Depois de dois anos, foi combinado que uma comitiva de São José dos Pinhais iria a Montemor-O-Velho para a assinatura de uma carta de intenções, que ocorreu em 1996, se me lembro bem. No ano seguinte, veio uma comitiva de Montemor-O-Velho para São José assinar a geminação com São José dos Pinhais. A vinda da comitiva a São José foi muito bonita porque concretizou nossa primeira geminação, e assim iniciou a internacionalização de São José dos Pinhais.

Placa em bronze marcando a geminação entre São José dos Pinhais e Montemor-O-Velho

Nós imaginamos que isso também se deve ao contexto histórico regional. Qual é a relação entre o Comitê de Geminações de São José dos Pinhais e a história da cidade? É uma região onde houve um processo de imigração intenso ou recebe muitos estrangeiros? Isso motivou a criação do comitê? 

Elza – Sim, eu vou citar aqui o livro da professora Maria Angélica Marochi que se chama “Imigrantes – 1870-1950 – Os europeus em São José dos Pinhais”. Esse livro conta que em 1878 tivemos a primeira colônia italiana em São José dos Pinhais chamada “Santa Maria do Novo Tirol”. A área onde eles deveriam ficar era reconhecida oficialmente pelo governador e pelo prefeito como destinada a imigrantes que vieram devido à guerra e à dificuldade de trabalho na Europa. Depois vieram os poloneses, que se fixaram na Colônia Murici, e os ucranianos que ficaram na Colônia Marcelino. Além dessas, havia também outras colônias porque São José dos Pinhais era um município muito grande, então os poloneses se fixaram no município de Araucária-PR, quando ainda era São José dos Pinhais, e também aqui na cidade mesmo. 

Capa do livro “Imigrantes 1870-1950 – Os europeus em São José dos Pinhais” de Maria Angélica Marochi

Então, a imigração ao redor e em São José dos Pinhais é muito grande. No início do povoamento havia os índios, porém, eles foram dizimados quando os portugueses vieram. São José atualmente tem uma mistura muito grande e, sobre essas irmandades, nós destacamos a Colônia Murici por eles terem ficado isolados e terem mantido muita cultura e tradição enquanto estiveram aqui desenvolvendo a terra. 

Além disso, podemos dizer que São José dos Pinhais já recebeu muitos estrangeiros, como os japoneses que vieram em uma época posterior, por exemplo. Atualmente, por causa de um grande ciclo de indústrias montadoras que se desenvolveu aqui em São José, o município já pode ser considerado outro. Ele mudou bastante porque vieram pessoas do norte do Paraná, de São Paulo e do Nordeste quando houve um foco em buscar empregos.

Maria – Até a década de 90, São José dos Pinhais era uma cidade realmente pequena, provinciana. Era comum as pessoas saírem e deixar as portas abertas, mas isso mudou com a industrialização forte e um grande número de empresas, como Volkswagen e Renault que se instalaram aqui. Ainda assim, até hoje São José dos Pinhais é considerada uma cidade de interior porque, apesar de estarmos apenas a 20 minutos de Curitiba, é uma cidade que tem seu estilo peculiar mais de interior mesmo.

Elza – Exatamente! Aqui todo mundo se conhecia. A Maria é minha parente distante e o Leopoldo Scherner, que citamos, é o meu “tio Leopoldo”. O sobrenome “Scherner” é alemão, mas ele também tem ascendência italiana e isso é reflexo da imigração dos alemães que também estiveram aqui, mas em número bem menor. Em geral, é uma mistura muito grande de povos são-joseenses.

É realmente bastante perceptível a influência da história da cidade e da imigração sobre a criação do Comitê. É quase como se vocês estivessem buscando raízes históricas, não é?

Maria – Sim, e isso facilitou até, na verdade. A geminação com Poznań foi bastante facilitada porque a imigração mais forte e a maior colônia aqui na cidade realmente é a polonesa. O objetivo era buscar uma geminação que atendesse à colônia.

Elza – Quando vêm os representantes da Polônia, o prefeito, vice-prefeito e os deputados, eles têm o maior orgulho da nossa colônia por eles manterem essa cultura tradicional. A Polônia atualmente lá na União Europeia está muito avançada, mas quando você vem aqui na colônia ainda tem aquela casa antiga, tem o “paiol”, que não sei nem se você sabe o que é (risos), que é um lugar onde eles guardam os grãos. Eles admiram muito isso. 

Maria – Outra colônia que vale mencionar é a italiana. Quando vêm as professoras da Polônia, a gente procura dividir entre as colônias (geralmente são 20 vagas para os cursos). Tem a colônia Mergulhão, que são os italianos, a Murici, que são os poloneses, e a colônia Marcelino que são os ucranianos. Apesar da geminação com Poznań ter como foco os poloneses, nós buscamos sempre fazer com que pessoas das outras colônias participem também das atividades. 

Nós vimos que o Comitê de Geminações já se relacionou cidades de países como Portugal, Polônia e China. Vocês poderiam falar sobre a forma que ocorreu esse contato e a relação com as cidades desses países? Além disso, em quais setores São José dos Pinhais costuma ter mais sucesso nas suas geminações (Educação, Saúde, Cultura, Turismo, etc)?  

Maria – Reforçando então um pouco do que já falamos sobre a geminação com Montemor-O-Velho, ela foi escolhida porque ela está para Coimbra, como São José dos Pinhais está para Curitiba. É também uma cidade pequena, não muito industrializada que tem como foco a produção de arroz, vinhos e doçaria. Porém, com a cidade de Montemor-O-Velho nós não temos conseguido fazer muito trabalho. Temos tentado há alguns anos, mas sem sucesso. No início de 2020, nós estávamos em contato com o prefeito de Montemor-O-Velho tentando fazer com que alguém da gastronomia ou da doçaria viesse a São José para fazer um curso junto ao SENAC Curitiba ou SENAC São José, porém devido à pandemia não conseguimos. 

Comitiva de São José dos Pinhais em Montemor-O-Velho, Portugal

Já com a Polônia nós temos uma geminação muito forte. Ela se iniciou em 1999 com a cidade de Poznań. Nós conseguimos realizar intercâmbios com Poznań todos os anos. Temos, por exemplo, professores de futebol, futsal, capoeira, dança de salão, dança contemporânea, gastronomia e culinária brasileira que já foram para lá. Além disso, também já fazem 3 anos que realizamos cursos de culinária polonesa com professores que vêm de lá. 

Em 2019, nós organizamos uma Semana de Estudo da Gastronomia Polonesa com o SENAC Curitiba simultaneamente com as cidades de Maringá e Foz do Iguaçu. A mesma programação também foi levada ao SENAC Brasília e ao SENAC Rio de Janeiro. Em seguida, as professoras vieram a São José dos Pinhais ministrando aulas de culinária polonesa para os nossos empreendedores do centro da cidade e das colônias Marcelino, Mergulhão e Murici. Foi um evento muito gratificante, e inclusive as professoras ficaram mais tempo do que o usual. Geralmente elas costumam ficar sete dias, mas dessa vez ficaram por quinze, quase vinte dias conosco.

Nossa terceira geminação foi em 2001, com o envio de uma comitiva para a China com o interesse de exportar carne. Nosso ex-prefeito tinha muito interesse nesse setor porque ele tinha um frigorífico bem grande e bastante conhecido na região, e a geminação foi pautada nesse setor. Porém, infelizmente, não tivemos muito retorno por causa da distância. Eles vieram em comitivas oficiais para São José dos Pinhais três vezes, e nossa carta de intenções inclusive foi renovada. 

Nossa geminação é com a cidade de Zibo, na província de Shandong e o interesse deles no Brasil e em São José dos Pinhais é também pelo futebol. Isso por causa de uma antiga história que conta que, apesar do futebol ter sido criado na Inglaterra, ele foi descoberto na China nesta província. O interesse deles era que a gente enviasse treinadores para ensinar futebol e além disso, no início, eles queriam que alunos de lá viessem para o Brasil e que o Comitê ficasse responsável por eles (não necessariamente em São José dos Pinhais, mas queriam que o Comitê ficasse responsável pelo aprendizado de futebol desses alunos aqui no Brasil). Havia, é claro, o interesse comercial aqui em São José, mas o futebol também foi um grande motivo para eles fazerem essa geminação. 

Esse contato com a China foi devido a um senhor chinês chamado “Guo” daqui de São José dos Pinhais que fez essa ligação entre a nossa prefeitura e prefeitura de lá. Em 2015/2016 ele estava tentando organizar uma visita do Comitê à cidade dele, mas não houve adesão por parte do Comitê por ser uma viagem bastante longa. Nós íamos para as comemorações do aniversário da cidade, e inclusive eles já haviam consentido que iriam nos receber, porém não foi possível realizar essa viagem.

Elza – Sobre o questionamento a respeito de quais setores costumam ter mais sucesso nas geminações: a Educação é a mais forte. Quando os estudantes vêm para cá, eles vêm adquirir o conhecimento da língua, alguns vêm estudar turismo e outros vêm fazer o ensino médio. 

Vale mencionar também nossa querida Semitha Cevallos, pianista, que já entra na parte de Cultura. Com a ajuda do Comitê, ela conseguiu se aperfeiçoar em Poznań, estudar Música e logo depois conseguiu fazer outros cursos, inclusive sem precisar mais da bolsa da Escola Superior de Poznań. 

A nós nunca foi solicitado nada na área da saúde. E o turismo está envolvido em todas essas atividades por causa das várias visitas que as comitivas fazem aqui a museus e igrejas, por exemplo. Os poloneses são muito religiosos e existe até mesmo um padre lá em Poznań e um aqui na nossa Colônia Murici que viraram amigos. Quando eles vêm para cá, temos uma agenda corridíssima. Marcamos almoço, visita aqui, visita ali, e o que não pode faltar: missa às 8h do domingo em polonês! Eu, Maria e o pessoal do Comitê sempre organizamos essa agenda muito minuciosamente, com dedicação quase militar.

Elza – Com os portugueses nós fomos a Florianópolis, mas por quê? Por causa dos assorianos! Houve em Florianópolis a colonização pelos assorianos. Então, como você pode observar, nossa programação é muito cuidadosa. 

Comitiva polonesa em São José dos Pinhais (2017)

Maria – Os poloneses, por exemplo, sempre querem ir a Foz do Iguaçu quando vêm para cá, então nós reservamos as passagens para eles e depois eles nos mandam o dinheiro. Nós fazemos isso com a ajuda do nosso tradutor oficial de polonês do grupo, que é o Roberto. Quando precisamos de tradução em inglês, aí é com a Elza! (risos). Claro que convidamos também algumas pessoas da colônia para ajudar na comunicação, mas esse tradutor é algo que funciona muito bem.

Elza – Se você pergunta à Maria quantos membros nós temos, ela vai falar e explicar toda nossa estrutura. Mas quem é que carrega o piano? Nós duas! (risos). Nós tínhamos muitos planos para esse ano. Nessa época mesmo nós deveríamos estar em Montemor-O-Velho ou na Polônia.

Maria – Sim, agora em setembro estaríamos em visita oficial para Montemor-O-Velho e em seguida para Poznań, na Polônia. A gente faz nossos intercâmbios, mas também temos nossas visitas oficiais. Quando eles vêm para cá, nós pagamos tudo. A prefeitura costuma ajudar com hotel e um almoço oficial, a Câmara Municipal e alguns empresários ajudam também, temos inclusive um empresário no Comitê que sempre ajuda. E quando nós vamos para Portugal ou para a Polônia, somos nós que pagamos as despesas, a não ser pela estadia, que eles costumam financiar. 

Elza – Os intercambistas já são outro caso: eles ganham tudo, passagem, hospedagem, transporte e alimentação. Os intercambistas da nossa geminação com Poznań têm tudo pago pelo Comitê e, às vezes, algo pago pela prefeitura.

Esses intercâmbios são apenas estudantes poloneses que vêm para cá, ou também vêm estudantes de outros países? Estudantes brasileiros de São José dos Pinhais também vão para a Polônia?

Maria – Os intercâmbios têm sido só com poloneses.

Elza – E a dificuldade que nem eu, nem a Maria entende, é que: os nossos estudantes de São José dos Pinhais não vão para a Polônia. Esses intercâmbios do Rotary, é possível observar, são sempre para os Estados Unidos ou outros países. Nós já conhecemos algumas pessoas que tinham interesse em ir para a Polônia para fazer pesquisa, mas isso não se concretizou. O que sempre acontece são os estudantes de lá virem para cá. Também teve uma expedição dos mestrandos e doutorandos que foi a pedido do prefeito do Poznań. Ele solicitou que o Comitê auxiliasse e apoiasse toda a visita de estudos deles aqui. E então o Comitê fez essa parte de assessorar. 

Maria – Mas então, para você saber, o que eles vieram estudar, Mateus? Os imigrantes poloneses vieram para cá e lá já se perdeu a música que a vovó e o vovô cantavam. Então nós fizemos visitas com eles na Colônia Murici com as irmãs de caridade, se me lembro, da Congregação Sagrado Coração, que é uma congregação polonesa. Eles se reuniram para elas cantarem e eles gravarem, porque isso era matéria de estudo deles lá na Polônia. Então as historinhas e a música da “nonna”, como a gente fala, são parte do estudos deles. Eles começaram por São José dos Pinhais, depois foram para União da Vitória e para Erechim, uma cidade já no Rio Grande do Sul, depois passaram em Foz do Iguaçu e retornaram para São José. Esse trabalho durou uns 40 dias.

Elza – Esses são todos locais que tiveram a imigração polonesa, e que também têm um núcleo mais fechado. Eles vieram no século XIX, então imagine quanta coisa já mudou.

Maria – Tudo isso com o objetivo de ensinar aos jovens de lá essa cultura que já se perde.

Elza – O Jan Grabkowski Starosta, prefeito de Poznań, que é muito culto, sempre diz:

Maria – “Vamos ensinar nossa cultura aos jovens, porque os mais velhos já sabem”. E a cultura não pode ser perder, não é? Então vamos ensinar! Um colega nosso, o Diego, já foi para lá duas vezes ensinar Música Brasileira. Quando eles começam as aulas, como todo europeu, eles não têm gingado no corpo. Nem eu tenho, na verdade! (risos). Mas depois de 1 semana de aula, eles já estão dançando. Eles fazem um evento grande com os alunos e então se apresentam, tipo um show mesmo. Assim, eles ficam com esse estudo sobre a música e a dança brasileira: o passinho, o samba, entre outros. Eles produzem essa parte prática com a apresentação, mas também produzem estudos acadêmicos sobre esse tema. Às vezes no ginásio são várias turmas cheias em vários horários que no final chega a ter 300 alunos nessas aulas de dança.

Elza – Falando também sobre a culinária, aqui nós fazemos o curso de culinária com o objetivo de alcançar os empreendedores e seus negócios, mas nossos professores e professoras de culinária que foram para Poznań ministram uma disciplina para alunos na Escola Técnica, a melhor que tem em Poznań.

Maria – São aulas de manhã, de tarde e muitas vezes até mesmo o prefeito vai lá almoçar ou degustar o que foi feito durante as aulas. 

Elza – Além disso, essas aulas são todas traduzidas, então novamente eu ponho em destaque a dedicação do Roberto, nosso tradutor. Nas aulas de culinária, geralmente a professora mostra a foto do que vai ser feito, por exemplo, pão de queijo, e se lá não tem os ingredientes necessários, então a gente leva daqui mesmo. Carne seca para fazer feijoada, sagu (eles adoram sagu de vinho), suco de maracujá para fazer mousse de maracujá, tudo isso a gente leva. 

Maria – Ah, e inclusive uma coisa que nós temos adotado nos últimos cursos de culinária tem sido o seguinte: nós enviamos apostilas traduzidas. As apostilas sobre culinária brasileira são traduzidas para o polonês. Da mesma forma, quando vêm uma professora de lá, então o Roberto traduz para poder mostrar aos empreendedores aqui. A maioria deles não falam polonês, então nós procuramos sempre traduzi-las. É um trabalho e tanto, mas…

Cerimônia de conclusão do curso de gastronomia polonesa com empreendedores das Colônia Marcelino, Murici e Mergulhão em São José dos Pinhais (2018)

Elza – Quando nós fizemos de geminação 10 anos do Comitê com Poznań, eu estava lá com a comitiva, e foi solenemente feito um livro por eles em português e polonês com todas nossas atividades realizadas. Então, nós fomos para o lançamento da primeira edição. Foi um evento soleníssimo! Já dá para perceber o respeito, não é?

Maria – Falando também de cultura, quando teve a exposição do nosso poeta Paulo Leminski em 2018, a filha dele, Áurea Leminski, nos acompanhou também em algumas atividades para tentar compartilhar seus poemas porque o Paulo tinha origem polonesa. O nome da exposição era “O meu coração de polaco voltou” e o poema era assim:

“Meu coração de polaco voltou

coração que meu avô

trouxe de longe pra mim

um coração esmagado

um coração pisoteado

um coração de poeta

E então, esse coração voltou com a filha. Foi muito emocionante! Nós abrimos a exposição lá na faculdade e, se me lembro, essa exposição ia ficar 2 anos. Creio que ainda deve estar exposta em Poznań. 

E sobre o Chile? O que vocês iam contar?

Maria – Nós tínhamos vontade de ter alguma geminação com um país próximo a nós. Nessa época, eu creio que o Comitê já deveria ter uns 15 anos, e entrou no Comitê uma pessoa da cidade de Los Angéles e ele era amigo do prefeito da cidade, então nós fomos atrás da geminação. Primeiro veio uma comitiva deles para cá com o intuito de assinar a carta de intenções, e depois foi uma comitiva de São José dos Pinhais para confirmar a geminação. Existe a carta de intenções e a carta de geminação. Geralmente se assina a carta de intenções em um país e a carta de geminação no outro. É tudo oficial e tem sempre que ir um representante da prefeitura. Estava tudo fluindo bem, eles já tinham feito umas três visitas a São José e o Comitê já tinha feito uma visita lá. Porém, houve alguns problemas com esse nosso ex-membro que era a nossa conexão com a cidade, e acabou que não trabalhamos por um tempo com essa cidade. A gente fica bastante triste porque nós temos ainda o contato de uma vereadora de lá com quem conversamos às vezes. Nós ainda temos interesse, mas agora temos que tentar novamente com o prefeito atual. O nosso prefeito já enviou uma carta, mas não tivemos resposta. Mas não vamos desistir!

Foi tentada geminação com cidades de algum outro país? 

Elza – Foi tentado com a Universidade Julliard, nos Estados Unidos. Quando nosso secretário de educação era o Engelbert, ele, o Sorengel e mais alguns membros foram para os Estados Unidos. Porém, estava indo tudo muito devagar até que o professor Engelbert deixou de ser secretário. E como você sabe, tudo tem que estar inflamando, senão não há interesse. Essa relação seria na linha educacional, mas parou mesmo. Tentamos uma vez também com a França quando tínhamos aqui perto um Cônsul Honorário que tinha muito interesse, mas a França sempre resistia e foi no momento que houve aquela crise na Europa há uns 4 ou 5 anos, aí não evoluiu. Quatro cartas foram enviadas daqui por esse Cônsul que conhecia muito São José dos Pinhais. Mas enfim, não conseguimos. Na Itália nós já fizemos várias tentativas e mandamos várias cartas, mas ainda estamos aguardando, não é, Maria?

Maria – Nós conversamos recentemente com uma pessoa que foi ex-governadora interina no ano retrasado. Ela ligou para uma pessoa que conhecia na Itália e prometeu que ia tentar conseguir uma geminação para nós com a cidade de Pádova. Ela encontrou a prefeita de Pádova e entregou a carta pessoalmente. Aí agora nós estamos aguardando uma resposta, que a pandemia pode estar atrasando porque o marido dessa senhora, sua filha e ela mesmo tiveram Covid-19. Ela faz parte inclusive daqui do Palácio Garibaldi, que é um grupo de cultura italiana. Outra coisa que também motivou a gente é porque temos aqui próximo o Caminho do Vinho, que já fez 20 anos desde a sua implementação, uma área rural com muitas famílias italianas que fazem turismo rural com café colonial, restaurantes, e mostram a produção de vinho. É um lugar bastante procurado. Esse era o nosso interesse: trazer cultura italiana para o Caminho do Vinho. No aniversário de 20 anos nós íamos apoiar a vinda de um coral italiano aqui para a Colônia Mergulhão em São José dos Pinhais. E para o Caminho do Vinho nós íamos apoiar os 50 anos do grupo folclórico, trazendo a professora Danuta que citamos na conferência da UNESP para ensinar dança para as crianças.

Vou aproveitar para falar também sobre um contato que tivemos com a Cônsul Honorária da França no ano passado porque foram eles que nos procuraram. Eles tinham interesse em instalar uma “Faculdade do Esporte” aqui, onde haveria pessoas de várias áreas que atendem pessoas mais velhas. Isso por causa da situação de quando uma pessoa se aposenta e ainda tem muito a oferecer/contribuir para o mercado, mas no mercado uma pessoa mais velha já não é mais incluída. Então, seria mais ou menos essa a proposta deles. No momento ainda é algo muito inicial. Foi uma proposta de uma cidade pequena na França e estamos aguardando.

Mas o que é que acontece: tanto na Itália como na França, geralmente eles nos convidam para ir para lá conhecer a cidade e então fazer a geminação.

E depois eles vêm a São José dos Pinhais para firmar a geminação?

Elza – Sim, é esse o nosso sistema. 

As senhoras são membros fundadores do Comitê que em 2020 completou 23 anos de atuação. Quantos membros o Comitê possui? Quem são esses membros? Como eles contribuem? 

Maria – Atualmente nós temos 25 membros, e todos eles precisam pagar uma mensalidade. Sobre quem são os membros: temos membros das Colônias Marcelino e Murici, ex-prefeito, ex-primeira dama, tem o Roberto, que é dono de cartório e nosso tradutor, temos nutricionista, oficial de justiça, professora, aposentadas, vereadores, secretários municipais, chefs de cozinha, várias áreas. 

Elza – Esse ex-prefeito, na época que ele era prefeito, apoiou muito as geminações. 

Maria – Ele e a esposa dele são colaboradores fortes do Comitê. Eles recebem as comitivas e são ótimos incentivadores. Às vezes delegamos a alguns membros atividades como ir comprar presente para a comitiva polonesa, reservar hotel, comprar um mimo para colocar no quarto, ou algo assim. Nós delegamos essas coisas àqueles que se habilitam, que não são todos. O Roberto sempre esteve muito a frente do Comitê também, mas como ele assumiu um cartório recentemente, está muito ocupado.

Elza – No início do Comitê, lá em 1997, eram 70 pessoas. Todo mundo só queria viajar. 

Maria – Só queriam viajar mesmo. Mas o objetivo do Comitê não é viajar. Eu, por exemplo, estou desde 1997 e só fui para a Polônia em 2018. Eu já tinha ido para Portugal algumas vezes, mas para a Polônia não. Vou te explicar agora como são feitas essas visitas oficiais, tenho até uma carta aqui:

“Prezado estimado Antônio Benedito Fenelon (atual prefeito de São José dos Pinhais),

Muito obrigado pelo convite para visitar o Brasil com a comitiva. No entanto, devido às próximas eleições presidenciais na Polônia nas quais todos estamos envolvidos e por causa de muitas responsabilidades e assuntos locais, infelizmente não poderei ir a São José dos Pinhais no futuro próximo. 

Seria um prazer fazer uma visita no próximo ano de 2021. Mais uma vez agradeço muito o convite, e já agora convido o senhor e seus membros do Comitê de Geminações São José dos Pinhais para visitar o distrito de Poznań.

Atenciosamente, 

Jan Grabkowski (prefeito de Poznań).”

Aí então nós já temos a resposta do convite que fizemos. Nós os convidamos para vir a São José dos Pinhais, infelizmente tivemos a resposta de que não seria possível, mas já foi feito um outro convite para visitar Poznan. Essa ligação com a prefeitura é bastante séria, tudo é oficial. 

Comitiva de São José dos Pinhais em Poznań, Polônia (2018)

Quais foram os principais problemas ou desafios e as maiores conquistas do Comitê nessa longa trajetória?

Elza – Um problema que nós temos é que não há um gabinete para o Comitê, nem funcionário, nem nada. Somos apenas nós do grupo. Agora com esse prefeito nós fizemos um pedido para ter uma sala, que é na Secretaria de Indústria, Comércio e Turismo e felizmente conseguimos. Nós temos um armário com todo o acervo e agora o armário quase não cabe mais porque são muitos presentes, papel, livros.

Maria – Uma conquista também foi poder ligar para Poznań, coisa que eu não faço porque eu não falo polonês (risos), mas agora nós podemos ir na Secretaria para fazer as ligações, tanto para convites, etc. Uma conquista grande também foi o título de Utilidade Pública Municipal que recebemos há uns 3 ou 5 anos. Isso é muito importante porque assim nós podemos participar de feiras, eventos para vender algo, como já fizemos há alguns anos. Já vendemos cachorro-quente no Dia do Trabalhador para arrecadar fundos para o Comitê, você acredita? 

Elza – É um “se vira nos 30”! (risos). Já fomos no frio vender Coca-Cola, cachorro-quente, cerveja na Festa do Pinhão e muito mais. A comitiva vai vir, então como é que você vai pagar um almoço, um presente, um jantar? Nós já fizemos bingo! Sabe o que é ter que fazer um bingo? (risos)

Maria – Tudo isso para arrecadar dinheiro para o Comitê. Outro problema é que nós não tínhamos conta em banco. Nós conseguimos abrir nossa conta apenas em 2015. E sabe quanto nós depositamos? 5 reais! Foi a Elza que depositou os 5 reais porque foi o que a gente tinha na bolsa. Mas hoje nossa situação está muito melhor, temos até aplicação. Eu era tesoureira e peguei uma tesouraria zerada porque houve uma situação bem delicada com a tesouraria. Sem documentos e sem prestação de contas. Mas nesse dia fomos eu, a Elza e o artista plástico Seixas Peixoto (um grande colaborador nosso) que nos empurrou para abrir a conta. 

Elza – Nesses 23 anos, esses entraves seriam com algumas pessoas do próprio Comitê. Mas em qualquer comunidade existe isso. Também vale a pena citar o caso da geminação com a cidade no Chile, que era para fluir por também ser na América do Sul e ser vizinho nosso. 

Maria – Sobre as conquistas: essa nossa sala de reuniões foi realmente uma grande conquista. Mas pensando melhor, acho que a nossa maior conquista é a geminação com Poznań e saber que lá eles já falam português. Tem a Silvia, o Tomás e outros que toda vez que a gente vai lá não temos dificuldade nenhuma de comunicação. Eles aprenderam português em função dessa geminação. É um grande orgulho para nós!

Elza – Tem essas coisas que acontecem, mas as coisas melhores suplantam as piores. Os desafios que tivemos passam e aparecem outras oportunidades.

Vocês já falaram um pouco sobre isso, mas em geral, como tem sido o trabalho do Comitê durante a pandemia?

Elza – Nossos projetos ficaram parados, ficamos “pandêmicos” também! (risos). Mas apenas em alguns setores, na verdade, porque na semana passada participamos daquela conferência com a UNESP Marília e agora com vocês do IDeF. Agora vamos para o mundo!

Maria – Tem algumas coisas que mesmo com a pandemia nós conseguimos fazer. Agora estamos tentando trabalhar na placa da praça de Montemor-O-Velho que era em bronze, mas alguém gostou da placa e a levou, aí estamos tentando recuperá-la. Vamos tentar dar sequência também com o caso da Itália. Mas os intercâmbios mesmo não tem como. Um dia antes da conferência da UNESP eu conversei com a Silvia por mensagem e ela me falou que as escolas na Polônia até o ano que vem continuarão on-line. Agora eles estão de férias, mas o início do ano será on-line. Então os nossos tradicionais intercâmbios do início do ano não vão acontecer.

E como é a relação com a prefeitura? 

Maria – Nosso interesse, a pedido também do professor Leopoldo Scherner, é que o Comitê não se torne algo da prefeitura. Ele é apolítico e independente. Nós vamos buscar ajuda da prefeitura sim, eles nos ajudam com os almoços, intercâmbios e hotéis através da Secretaria de Indústria, Comércio e Turismo. Nossa relação com a prefeitura já foi difícil, bastante difícil, mas agora tem fluido bem. O nosso secretário de Indústria, Comércio e Turismo nos ajudou muito. Ele teve que deixar o cargo recentemente por causa de problemas de saúde, mas nos acolheu muito bem, procurando sempre ajudar no que é preciso e acompanhando a comitiva aqui em São José dos Pinhais. Então até o próximo ano pelo menos nossa relação está bem aliviada. 

O que nós percebemos sobre a relação de vocês com a prefeitura então é que, por exemplo, mesmo quando já foi díficil, como vocês mencionaram, o Comitê segue trabalhando normalmente. A relação com a prefeitura não impede o andamento dos projetos de vocês, certo?

Elza – É isso mesmo, resumiu perfeitamente!

Maria – Realmente não pára. A gente se dedica bastante ao Comitê. Por isso é que nós merecíamos uma sala com uma secretária ou algo assim. 

Elza – Nós temos muito papel, fazemos muita comunicação, é realmente necessário. Mas as dificuldades nós vamos superando.

Maria – Pois é. Está bom, entre bom e ruim, está bom! (risos)

Agora a última pergunta: que dicas vocês dariam para pessoas em outras cidades interessadas em trabalhar com geminações? Vocês mostraram bastante experiência, bastante conhecimento e tenho certeza que isso é inspirador para outras pessoas começarem um trabalho semelhante.

Elza – Nessa realidade nossa de 23 anos, desde quando tudo começou, o que nós percebemos é que tem que haver uma afinidade, que aquela cidade possa ter com a nossa cidade e com as pessoas daqui, porque senão não vai haver link, não vai haver sentido. A nossa experiência nos conta que é preciso haver interesse de ambos os lados. Nós temos interesse em trabalhar com o nosso berço na Itália, temos pessoas no Comitê de origem italiana, mas se eles não vêem essa necessidade lá, então temos que deixar isso de lado e procurar outra geminação. Foi assim mesmo que tudo começou: o tio Leopoldo sabia que não havia portugueses aqui, mas o nosso link era a própria Língua Portuguesa, os poetas portugueses e todos os literatos. O Seixas mesmo, nosso artista plástico, nos mostrou através de suas sete exposições a história de Portugal e, queiramos ou não, o “achamento” do Brasil foi pelos portugueses.

Artista português Seixas Peixoto durante exposição em São José dos Pinhais

Maria – Uma coisa que é necessário fazer quando se busca uma geminação é procurar também uma cidade que não tenha geminações no Brasil. Por exemplo, Coimbra já tem com Curitiba e deve ter com São Paulo também, e o que nós buscamos agora com a cidade de Pádova foi procurar saber se eles já não tinham alguma outra geminação aqui. Isso facilita também o processo.

Elza – Essa colocação da Maria foi muito boa porque foi algo que tentei com a cidade de Gaggio Montana uma vez que eu viajei com vários pracinhas em uma excursão da FAB, porque toda aquela região foi onde os expedicionários atuaram. Lá encontramos vários amigos porque os expedicionários daqui quando foram para Itália foram tratados com muito carinho. Eles se entendiam bem com os italianos e doavam também muitas coisas. Você deve lembrar da história, não é? Quando se fala em Gaggio Montana e Pistoia, se lembra dessa história. Eu tentei fazer a geminação com Pistoia porque lá eu encontrei um grande amigo chamado “Grande Pereira”, ele e seu pai cuidam do monumento aos pracinhas em Pistoia. Aí ele me disse: “Elza, eu acabei de fazer uma geminação com uma cidade do Rio Grande do Sul”. E Gaggio Montana também já havia feito com uma outra cidade que eu não lembro. 

Então é isso: não pode já ter uma geminação com outra cidade brasileira. Nessa região dos pracinhas você não tem ideia, eu tentei com todas elas. É claro, eu tinha que ter um conhecido lá não é? Se eu não tivesse alguém que soubesse de São José dos Pinhais, aí não dá. Esse é um detalhe importante sobre cidades-irmãs.

Maria – Quem pretende fazer a geminação tem que ter persistência, ser firme no seu propósito, e não desistir jamais pelo o que vai encontrar pelo caminho. Houve uns momentos até que eu cheguei a escrever uma carta e mandei para minha presidente do Comitê aqui ao lado (Elza) dizendo que não queria mais (risos).

Elza – Meu braço direito e esquerdo, já pensou?! (risos)

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