
Em um país onde uma mulher é vítima de violência a cada 4 minutos e a desigualdade de gênero ainda marca profundamente o acesso a direitos, oportunidades e espaços de poder, a urgência por transformação estrutural nunca foi tão evidente. A luta acerca da disseminação de políticas públicas, movimentos que proporcionem maior igualdade de gênero e o enfrentamento à violência contra a mulher em diversas áreas da sociedade brasileira permeia a realidade de milhares de líderes, ativistas e instituições engajadas em extinguir os danos causados por anos de exclusão e desigualdade.
No decorrer da história, tornou-se claro que as medidas de enfrentamento a esta estrutura enraizada no corpo social não poderiam partir somente de um comprometimento feminino com as problemáticas levantadas, mas que seria necessário o engajamento de toda a sociedade, principalmente de homens e meninos, para que mudanças reais pudessem ocorrer no espaço destinado às mulheres na ciência, na política, no mercado de trabalho e nas universidades.
Nesse sentido, a fim de eliminar atitudes, preconceitos e estereótipos machistas, encorajando homens a defenderem os direitos das mulheres e de meninas, como uma questão de direitos humanos que beneficia toda a população, foi lançado, em 2014, pela ONU Mulheres, o movimento #ElesPorElas (#HeForShe, em inglês), que firmou uma importante parceria com a Universidade de São Paulo, uma das dez universidades escolhidas mundialmente para fazer parte do programa IMPACTO 10x10x10, sendo a única da América Latina. Este programa do movimento ElesporElas da ONU Mulheres, lançado em 2015, buscou obter a adesão de 10 governos, 10 empresas e 10 universidades, com o objetivo de promover mudanças concretas nesses três segmentos e ampliar, em escala social, o enfrentamento da desigualdade entre gêneros e da violência.
“Mudar o cenário da Universidade de São Paulo para acabar com a violência de gênero e empoderar mulheres e meninas a alcançar a igualdade de gênero é um caminho sem volta. Temos a responsabilidade de engajar homens e meninos para transformar valores culturais, práticas e ações, enfrentando a discriminação e os estereótipos de gênero na educação para promover um ambiente mais inclusivo, justo, sustentável e igualitário em oportunidades para todos.” — Vahan Agopyan, Ex-Reitor da Universidade de São Paulo (2018–2022).
Os representantes das dez universidades promovem encontros virtuais por meio de conferências online de forma mensal, além de se reunirem presencialmente duas vezes ao ano com outros membros do #HeForShe. Durante essas reuniões, são discutidos os avanços e obstáculos enfrentados pelas instituições, permitindo, dessa maneira, o compartilhamento de experiências e o esforço multilateral rumo ao combate à violência contra a mulher e à desigualdade de oportunidades. Além disso, também são apresentados dados e resultados alcançados, bem como o impacto positivo gerado, em comemorações que ocorrem no aniversário do movimento #HeForShe, reforçando também a divulgação das ações realizadas.
A seleção da USP dentre as dez únicas universidades “campeãs” escolhidas pela ONU Mulheres para integrar o Projeto Impacto 10x10x10 do movimento #HeForShe demonstra o compromisso da instituição na luta pelo alcance de um dos mais desafiadores Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) das Nações Unidas: a igualdade de gênero. Sendo a única universidade latino-americana parte do projeto, a USP coloca-se em uma posição de destaque mundial, projetando sua influência em regiões que vão além das fronteiras brasileiras e consolidando a imagem do Brasil como um país que se compromete a ser ativamente engajado em espaços multilaterais que objetivam lutar pelas garantias e pelo bem-estar de sua população feminina.
Dentre os importantes feitos que possibilitam compreender a relevância da universidade na agenda de gênero, não se pode deixar passar despercebida a magnitude das consequências positivas trazidas pela criação do Escritório USP Mulheres, no ano de 2016. Essa ação consiste em uma estratégia que busca abordar a violência de gênero e promover a implementação de ações voltadas à garantia dos direitos das mulheres. O Escritório é composto pelas áreas de formulação de programas e ações educativas, organização e condução de pesquisas, comunicação e parcerias.
O órgão teve como primeira coordenadora, depois de ser oficialmente fundado, a professora Eva Blay – um nome relevante dentro do movimento feminista brasileiro. Em 2021, Adriana Alves, também professora e ativista no combate ao racismo no campo científico, assumiu o cargo e o manteve desde então.
O Escritório USP Mulheres conduz as ações relacionadas ao HeForShe, implementando mudanças que servem de inspiração para a rede de universidades ao redor do país, principalmente em um cenário, muitas vezes, de desesperança quando se trata da questão da mulher no Brasil. As iniciativas procuram mobilizar estudantes, professores e funcionários dos mais diversos departamentos e cursos da USP, reforçando que a representação feminina, independentemente de diferenças étnico-raciais, deve ser contemplada na totalidade dos espaços.
Pesquisas na área de violência contra a mulher são fortemente incentivadas e apoiadas pela universidade. O estabelecimento de uma parceria entre a USP e o Centro de Estudos da Metrópole em 2016, por exemplo, busca mapear, com a ajuda da Rede de Mulheres da universidade, a segurança em áreas dentro do campus, buscando estratégias para tornar o campus um espaço seguro.
Além disso, o Escritório atua juntamente à Comissão de Direitos Humanos e à Ouvidoria da USP a fim de prestar acolhimento às vítimas de violência e encorajar os processos de denúncia, contando inclusive com um corpo jurídico capaz de tornar mais eficaz a condução de casos envolvendo atos violentos contra mulheres praticados dentro do campus e mobilizando especialistas de diversas áreas da própria universidade a fim de desenvolver um programa que capacita porteiros e camareiras da residência universitária a responder de maneira adequada e a oferecer ajuda imediata a alunas que sofreram violência. Os diversos profissionais preparados pelo programa são orientados a guiar as vítimas até o atendimento médico e à polícia. Assim, a universidade não mede esforços para criar um ambiente seguro e mostra-se disposta a lutar efetivamente contra qualquer tipo de violência que possa ocorrer em meio à vida universitária.
Mesmo no grave cenário de pandemia, no ano de 2020, a USP se mostrou extremamente ativa na causa das mulheres. A universidade impulsionou mais pesquisas, desta vez relacionadas aos efeitos da Covid-19 na população feminina e masculina da USP, objetivando coletar dados sobre violência doméstica. Tal ação fazia parte da campanha “A USP unida pela igualdade de gênero”, inspirada na campanha da ONU Mulheres “HeForSheAtHome” em época de pandemia, que conscientizava os homens a respeito das questões de gênero dentro de casa.
Os esforços por parte da Universidade de São Paulo em lutar ativamente contra a violência de gênero e a favor da inserção igualitária de grupos masculinos e femininos em todas as áreas da sociedade, prestando forte apoio às mulheres que fazem parte de sua instituição, vêm sendo percebidos há muito tempo. Esse perfil da USP mostra por que ela foi selecionada para integrar o Projeto Impacto HeForShe 10x10x10. Os critérios de escolha basearam-se em reputação por fortes práticas éticas, demonstração de excelência em serviço público, relevância e abrangência global, e disposição em usar sua influência para inspirar mudanças. O reconhecimento de uma universidade brasileira é um grande marco e uma fonte de encorajamento para as demais universidades espalhadas pelo Brasil que visam construir uma sociedade em que a população feminina se sinta segura e representada.
Referências e Fontes
- USP MULHERES. Impacto 10x10x10. São Paulo: Universidade de São Paulo, [s.d.]. Disponível em: http://uspmulheres.usp.br/escritorio/impacto-10x10x10/
- USP MULHERES. Relatórios #HeForShe. São Paulo: Universidade de São Paulo, [s.d.]. Disponível em: http://uspmulheres.usp.br/relatorios-heforshe/
- USP MULHERES. ElesPorElas. São Paulo: Universidade de São Paulo, [s.d.]. Disponível em: http://uspmulheres.usp.br/escritorio/elesporelas/
- USP MULHERES. Relatório de atividades USP Mulheres 2018–2021. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2021. Disponível em: http://uspmulheres.usp.br/wp-content/uploads/sites/145/2021/12/Relatorio-de-atividades-USP-Mulheres_2018-2021-1.pdf
- USP MULHERES. ONU Mulheres completa dez anos e é parceira da USP na promoção da igualdade de gênero. São Paulo: USP Mulheres, 2 jul. 2020. Disponível em: https://uspmulheres.usp.br/onu-mulheres-completa-dez-anos-e-e-parceira-da-usp-na-promocao-da-igualdade-de-genero/
- UN WOMEN. Press release: UN Women announces bold commitments to gender equality from 10 partners across the world. New York: UN Women, 5 maio 2015. Disponível em: https://www.unwomen.org/en/news/stories/2015/5/five-new-companies-and-five-new-universities-join-impact-10x10x10

